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Obrigado pelo vosso serviço

Por: Bernardo Gomes 

Publicado no jornal Público em 24/09/2021.

Bernardo Gomes – Médico especialista em saúde pública

Chegou o momento de termos corpos especializados de controlo de doenças infecciosas/intervenção em catástrofes, de carácter multidisciplinar, com elementos das Forças Armadas e da proteção civil.

Agora que estamos a chegar aos 85% de cobertura vacinal, graças ao empenho dos profissionais dos centros de vacinação, sob a batuta da equipa do vice-almirante Gouveia e Melo, convém assinalar e sublinhar o contributo de militares, forças de autoridade, e proteção civil nas batalhas da pandemia.

Sou um dos felizardos que contaram com o apoio inquestionável destas forças no terreno. As câmaras municipais de Arouca e de Santa Maria da Feira foram incansáveis no apoio aos profissionais de saúde, com exemplos assinaláveis de boas práticas.

Uma das boas práticas, presentes em outros locais do país, foi a disponibilização de recursos municipais para a gestão de contactos de covid-19, intervenções em estabelecimentos residenciais para pessoas idosas e coisas tão simples, mas importantes, como a ajuda na compra de alimentos e medicamentos para quem não podia sair de casa. 

As forças de autoridade, Guarda Nacional Republicana, Polícia de Segurança Pública, Polícias Municipais são poucas vezes referidas no contexto do combate pandémico, mas foram fulcrais na sensibilização e fiscalização e, quando necessário, na acção sobre incumprimentos.

Militares. Chamados ao serviço numa altura de necessidade, ajudaram-nos na gestão de contactos de casos covid-19, em questões de logística e, claro, na aplicação do conhecimento e experiência organizacional para atingir o feito extraordinário da nossa cobertura vacinal. Algo que poderá escapar a quem está de fora é que, em contexto de emergência, estes homens e mulheres das Forças Armadas vieram trazer um certo sentido de urgência adicional e algo que fazia falta: um pensamento sistémico mas de execução linear. Menos burocracias, menos tempos de latência, menos hesitações. Uma abordagem “lateral” a estruturas lentas na Saúde, com assimetrias regionais assinaláveis.
Precisamos de aprender de uma vez por todas: a velocidade era chave para uma resposta mais eficiente.

Por cá, em Portugal, temos também profissionais de saúde ligados às Forças Armadas e também a criação de uma competência em Medicina Militar, que deve ser valorizada. Os United States Public Health Commissioned Corps representam o ramo militar dos Estados Unidos dedicado à saúde. Médicos, enfermeiros, dentistas, veterinários, engenheiros e outros profissionais inseridos em múltiplos serviços e mobilizáveis em contexto de emergência, como foi o exemplo do desastre do Katrina.

Intimamente ligados ao controlo de doenças infecciosas, também estão intimamente ligados à criação, em 1946, do Communicable Disease Center (CDC), que iria mudar de nome mas reter as iniciais do centro mundial de referência de controlo de doenças infecciosas.

Esta breve incursão histórica e comparativa serve apenas para realçar que o interface com os militares no controlo de doenças infecciosas e emergências não é propriamente novo e tem know-how e competências disponíveis em Portugal também. O que falta?

Temos a urgência de uma reforma dos serviços de Saúde Pública, desde o nível local até à Direcção Geral de Saúde. Temos a necessidade máxima de rentabilizar os recursos num país que não tem as mesmas possibilidades dos Estados Unidos. É imperativo, num momento em que a formatação One Health é uma prioridade, criarmos plataformas mais estáveis em que contamos com outras especialidades e saberes.

Chegou o momento de termos corpos especializados de controlo de doenças infecciosas/intervenção em catástrofes, de carácter multidisciplinar, com elementos das Forças Armadas e da proteção civil. Chegou o momento de contarmos mais com os médicos veterinários, engenheiros e outros saberes para fazer frente aos desafios presentes e futuros interfaces entre saúde ambiental, animal e humana.

Uma reforma sem considerar a necessidade imperativa de fusão de unidades, de vigilância epidemiológica integrada entre várias áreas e da agilização futura de respostas no terreno irá deixar mais desprotegidas as gerações futuras. Será preciso fazer frente a burocracias incompreensíveis, corporativismos, pequenos poderes, organismos antiquados, mas há um motivo válido para isso: o futuro.

Como inspiração, devemos pensar em todos que conseguiram partir o molde dos pequenos feudos e, por um motivo maior, dedicaram incontáveis horas a ajudar a comunidade.
Entre estes, militares, polícias, proteção civil. Entre outros.

Obrigado pelo vosso serviço.

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